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Desconectando para viver: como a dependência digital está roubando nosso tempo, sono e saúde mental

Publicada em 30/07/25 às 11:51h

por Carla Brazão


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O dia mal começou e os dedos já deslizam pela tela. Uma olhada no Instagram, uma passada pelo TikTok, responde o WhatsApp, atualiza o feed. Quando se percebe, já se foram quarenta minutos — e o café nem esfriou. Para muitos, esse ritual matinal parece inofensivo. Mas, quando somado às horas gastas entre reels, stories e notificações ao longo do dia, o que era hábito vira um alarme silencioso: estamos perdendo o controle.

Vivemos a era da hiperconexão. Tudo é urgente, tudo é compartilhável, tudo está a um clique. E, nesse ritmo, a mente vai perdendo o fôlego. A ansiedade dispara, o sono encurta, a produtividade despenca e as relações se tornam rasas — inclusive com nós mesmos.

“É um comportamento viciante porque ativa o sistema de recompensa do cérebro. Cada curtida, notificação ou novo conteúdo libera dopamina, e o cérebro começa a buscar esse estímulo o tempo todo. Quando percebemos, já estamos presos em um ciclo de dependência emocional e mental”, explica o psicólogo Roberto Roni, especialista em neurociência e comportamento.

Se antes as pausas do dia eram preenchidas com caminhadas, leituras, conversas ou simplesmente o ócio criativo, hoje são engolidas pela tela do celular. No trânsito, na fila do banco, antes de dormir. O tédio virou intolerável, o silêncio ficou incômodo — e a mente, sempre ocupada, perdeu espaço para respirar.

A comparação com a “vida perfeita” dos outros — editada, filtrada e bem-iluminada — também vem adoecendo, principalmente os mais jovens. A autoestima, frágil, se sustenta em coraçõezinhos vermelhos e comentários validadores. “Muitas vezes, o celular é a primeira coisa que a pessoa olha ao acordar e a última antes de dormir. Isso já é um sinal de alerta importante”, reforça Roni.

O problema, como quase todo vício moderno, se esconde sob a aparência de normalidade. Afinal, “todo mundo faz”, “é só um story rápido”, “é trabalho também”. E enquanto a lógica do algoritmo se impõe, silenciosamente, nossa atenção vai sendo sequestrada.

“Vivemos uma hiperestimulação. A mente não descansa mais. Perdemos a capacidade de estar presentes, de ouvir o outro com atenção e até de ficar sozinhos com nossos próprios pensamentos. Isso afeta não só o bem-estar pessoal, mas a qualidade das relações humanas”, diz o especialista.

Para mudar esse cenário, não é preciso abandonar a tecnologia — e sim recuperar o protagonismo sobre ela. Estabelecer limites claros, silenciar notificações, tirar dias offline, redescobrir prazeres fora da tela e, se necessário, buscar ajuda profissional.

“Não se trata apenas de falta de disciplina, mas de um sistema feito para gerar dependência. E quanto mais cedo reconhecemos isso, mais chances temos de resgatar o equilíbrio”, alerta Roberto Roni. “Recuperar o controle da atenção é um ato de autocuidado. A saúde mental começa quando retomamos o protagonismo sobre nosso tempo e nossa atenção.”

A pergunta que fica é: e se, em vez de olhar o celular no primeiro minuto do dia, a gente respirasse fundo e olhasse para dentro?





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