
O debate sobre cannabis medicinal no Brasil ganhou novos contornos nesta semana com duas decisões que movimentaram o setor. A Anvisa autorizou oficialmente a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) a cultivar e pesquisar a Cannabis sativa para fins medicinais e industriais — um marco inédito para a ciência brasileira. Em contraste, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu adiar novamente o prazo para regulamentar o plantio da planta no país, agora previsto para 31 de março de 2026.
A combinação de avanço científico e atraso regulatório tem gerado reações distintas entre especialistas. Para a médica Dra. Amanda Medeiros, referência nacional em medicina endocanabinoide, a entrada da Embrapa no campo da cannabis representa um passo decisivo para o país, embora o adiamento da regulamentação gere apreensão.
“A autorização para a Embrapa é, sem dúvida, um divisor de águas. Ver a nossa maior referência em pesquisa agropecuária entrar no jogo valida a cannabis como uma cultura agrícola legítima, e não como um tabu”, afirma a médica. “Para médicos e pacientes, isso significa que no futuro teremos genéticas desenvolvidas em solo nacional, com controle de qualidade rigoroso, o que é fundamental para a segurança do tratamento”, completa.
O projeto da Embrapa — financiado pela Finep — será conduzido por unidades no Distrito Federal, Rio Grande do Sul e Paraíba. A iniciativa inclui estudos de melhoramento genético, cultivo controlado e desenvolvimento industrial do cânhamo, ampliando o potencial econômico e tecnológico da planta no país.
Enquanto isso, a decisão unânime do STJ de prorrogar o prazo de regulamentação geral, a pedido da União, foi recebida com preocupação.
“O adiamento para 2026 preocupa. Enquanto a ciência avança nos laboratórios da Embrapa, o paciente continua dependendo de importações, de associações que lutam na justiça para cultivar ou de decisões liminares”, alerta a Dra. Amanda. “A ciência tem seu tempo, mas a dor do paciente tem pressa. Precisamos que essa regulamentação ande para que a cadeia produtiva saia do papel e o custo do medicamento caia.”
O tema também ganhou força durante a ExpoCannabis, realizada este mês em São Paulo, onde especialistas e pesquisadores reforçaram o potencial do cânhamo industrial — que pode ser usado na produção de fibras, alimentos, bioplásticos e até materiais de construção. A Embrapa Algodão já indica interesse em ampliar pesquisas que integrem o uso medicinal e industrial da planta.
Segundo a Dra. Amanda, esse movimento pode transformar não apenas a economia, mas o próprio acesso à saúde.
“Uma cadeia produtiva robusta, que produz fibra e alimento, ajuda a subsidiar e baratear a produção do remédio. É uma engrenagem única. O Brasil tem clima, terras e expertise agrícola”, explica.
A Dra. Amanda Medeiros é médica formada pela Universidade Iguaçu (RJ), com pós-graduações em pediatria, nutrologia pediátrica e psiquiatria da infância e adolescência. Ela possui certificação internacional em medicina endocanabinoide pela GreenFlower (Califórnia) e formação avançada pelo Instituto Plenos. Com mais de dois mil pacientes ativos, atua como prescritora de canabinoides, mentora de médicos e participante de projetos humanitários no Brasil e no exterior.