
Apesar das homenagens e campanhas que marcam o Dia das Mães, a realidade de milhões de brasileiras ainda é marcada pela sobrecarga da dupla jornada, desigualdade salarial e dificuldades de permanência no mercado de trabalho após a maternidade. Dados da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio (PNAD) do IBGE mostram que, embora as mulheres representem 51,7% da população brasileira com mais de 14 anos, elas ocupam apenas 44% dos postos formais de trabalho, índice 12 pontos percentuais inferior ao dos homens.
O cenário se agrava quando a maternidade entra na equação. Segundo levantamentos do DIEESE e do IBGE, as mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos, quase o dobro do tempo gasto pelos homens, que dedicam 11,7 horas. A sobrecarga doméstica e o cuidado com os filhos impactam diretamente a trajetória profissional feminina, reduzindo oportunidades de crescimento e aumentando a vulnerabilidade no emprego.
Para a advogada especialista em liderança feminina Silvia Leticia, o problema vai além da esfera individual e exige mudanças estruturais nas empresas e na sociedade. "A romantização da mulher que consegue dar conta de tudo cria um padrão irreal e extremamente nocivo. A maternidade ainda pesa negativamente na carreira de muitas profissionais, seja pela dificuldade de progressão, pela redução salarial ou pelo medo constante da demissão. Não se trata de falta de competência, mas de um modelo de trabalho que ainda não absorveu a necessidade de divisão equilibrada do cuidado e das responsabilidades familiares", afirma.
Maternidade e mercado de trabalho
Dados do PNAD apontam que três em cada sete mulheres têm medo de perder o emprego ao engravidar, enquanto 22% não conseguem retornar ao mercado de trabalho após a chegada dos filhos. Entre homens com filhos em idade pré-escolar, a taxa de participação no mercado de trabalho chega a 95%. Entre as mulheres na mesma condição, o índice cai para 65%.
Além da dificuldade de permanência, a disparidade salarial também permanece significativa. Ainda segundo a PNAD, mulheres recebem, em média, 21% menos que os homens. Entre profissionais com ensino superior completo, a diferença salarial pode chegar a 34,84%. A desigualdade é ainda mais evidente nos cargos de menor remuneração: 43% das mulheres ocupadas recebem até um salário mínimo, contra 32% dos homens.
"Flexibilidade, programas de retenção, incentivo à parentalidade compartilhada e transparência salarial precisam deixar de ser discurso e se tornar prática. O cuidado com os filhos não pode continuar sendo tratado como responsabilidade exclusiva das mulheres, porque isso compromete diretamente a independência financeira e o crescimento profissional feminino", completa Silvia Leticia.